“Não tem margem.

O tempo me escapa e foge.

O tempo não tem margem.

Ele flui e nós passamos.

Preservamos pelo menos a memória.”1

 

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Fonteira (2019) é um trabalho onde eu dialogo diretamente com a passagem do tempo e os ciclos da vida. Ciclos de vida e morte, ciclos de decomposição e formação, ciclos. Envoltos por uma atmosfera suspensa do tempo-espaço, essa sequência de fotos, busca dialogar com as diferentes velocidades e dinâmicas de interagir e tornar-se ao mesmo tempo “objeto” de interação do mundo, em micro e macro escala. 

A etimologia da palavra fronteira bifurca-se em inúmeras vertentes e significados, porém meu interesse é focado em seu quesito que transcende a um estado de questionamento não-físico da matéria, mas sim das interpretações da nossa experiência, nosso devir diante do universo. Onde encontram-se as fronteiras impalpáveis e invisíveis aos nossos olhos? Onde esses extremos se conectam? Como o tempo se apropria dessa sutil e constante modificação nas coisas presentes na nossa vida e entorno? 

É sobre se desgastar, desaguar, evaporar, solidificar, rachar, recompor-se. Sobre transformar e se transfigurar ao passar do tempo. As fronteiras se encontram. As fronteiras se perdem. Os movimentos repetitivos e circulares da terra não se cansam e este passar de tempo, por mais sublime que seja aos nosso olhar, faz-se inquestionavelmente presente, desdobrando-se através de fatores e forças permanentes e ocultas. 

É iminente e inegável a modificação que ele carrega. O desgaste das eras, a desintegração e repartição da matéria, o acúmulo de experiências e seu o regresso à origem. O corpo se decompões na terra, vira cinza, vira pó. A crina do animal vira pó, a montanha também vira pó. Uma transmutação fluida dá-se entre os elementos e a realidade plural e polimórfica do que existe. 

 

1passagem de “Suite lacustre”, documentário de Fabrice Aragno, 2019